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segunda-feira, 12 de março de 2012

HEPATITE C

- Hepatite C (VHC) -
 Visão Geral:
            O vírus da hepatite C é transmitido quando o sangue contaminado por ele penetra na corrente sangüínea através de transfusões, acupuntura, agulhas ou seringas compartilhadas, tatuagens, piercings, instrumentos de manicure, ferimentos, entre outros.
            Como acontece com o VHB, numa parcela significativa de pacientes o meio de transmissão não é identificado.
            Cerca de 80% das infecções pelo VHC evoluem para casos crônicos. Atualmente, a cirrose e o câncer de fígado relacionados à hepatite crônica C são a maior causa de transplantes nos Estados Unidos.
            O VHC apresenta vários subtipos, os genótipos, que são importantes porque apresentam diferentes respostas ao tratamento. O genótipo 1, por exemplo, apresenta resposta mais difícil do que os demais (não-1).
            Segundo as estimativas da OMS, existem 170 milhões de pessoas contaminadas no mundo. No Brasil, esse número é de aproximadamente 3,2 milhões (1,88%).

As principais vias de transmissão do VHC:
1) Transfusão de sangue e derivados do sangue;
2) transplante de órgãos ou tecidos;
3) através de agulhas, seringas ou ferimentos;
4) da mãe para o bebê (pouco freqüente);
5) contato sexual sem preservativo (pouco freqüente);
6) Profissionais de saúde, agentes penitenciários e os usuários de drogas injetáveis são os maiores grupos de risco para a infecção pelo VHC através de transmissão por sangue contaminado.
            Também pode ocorrer contaminação através do compartilhamento de materiais como escovas de dente, barbeadores lâminas e utensílios de manicure contaminados. Tatuagens e piercings feitos com agulhas contaminadas também transmitem o vírus.
            Aproximadamente um terço dos pacientes contaminados pelo VHC não sabem o modo como contraíram a doença.

Prevenção:
            Não existe vacina contra a hepatite C. Poucos pacientes desenvolvem anticorpos contra as proteínas virais do VHC; assim, a vacinação não tem se mostrado eficaz.
            Na ausência de vacinas, a principal forma de prevenção contra o VHC é testar todo sangue coletado nos bancos de sangue, para assegurar que tanto ele como os seus derivados estejam livres do VHC. Também devem ser realizados exames em outros objetos de doação, como órgãos ou sêmen.
            Além disso, são necessários os cuidados com materiais que possam conter sangue contaminado, como alicates de unha, lâminas, barbeadores, escovas de dente, agulhas de seringas compartilhadas, entre outros.
            Uma das principais forma de prevenir a transmissão da hepatite C é examinar todo o sangue coletado nos bancos de sangue.

Sintomas:
            Na fase aguda da infecção os sintomas são leves ou ausentes, por isso ela raramente é diagnosticada nesse período.
            Os sintomas da infecção crônica também são leves, pelo menos no início. Dessa maneira, é comum o portador conviver vários anos com a doença sem saber que a possui. Na maioria das vezes, acaba por descobrir acidentalmente durante exames de sangue de rotina ou nos exames de triagem para doação de sangue.
            Nos casos em que o paciente apresenta sintomas, esses podem ser síndrome gripal, fadiga, falta de apetite, náuseas, vômito, febre e dores abdominais leves.

Infecções concomitantes:
            Estar contaminado com um tipo de hepatite não significa que você está isento de contrair outras formas de infecções. Pacientes com hepatite C que também contraem hepatite A corem um sério risco de ter hepatite fulminante - uma forma de evolução muito rápida e mortal da doença. Por isso, é importante que portadores da hepatite C sejam vacinados contra hepatite A e B.
            Existem também vários casos de pacientes contaminados com os vírus da hepatite C (VHC) e HIV. Nesta situação a hepatite tente a apresentar uma maior velocidade de progressão, podendo ocorrer cirrose mais precocemente. Este problema é preocupante já que os pacientes com AIDS têm apresentado excelentes resultados com o tratamento do HIV e, desta maneira, a hepatite passa a ser uma nova limitação a sua saúde. Vários estudos que investigam opções de tratamento para estes pacientes estão em andamento.

Como a hepatite C é diagnosticada?
            São feitos exames de sangue específicos, como:
Enzimas do fígado: Quando o fígado é atacado pelo vírus e as células começam a ser destruídas, as enzimas presentes dentro dessas células se elevam na corrente sangüínea. Os médicos fazem um teste sangüíneo que mede o nível da enzima ALT (alanina aminotransferase) e AST (aspartato aminotransferase). O próximo passo é determinar se é um vírus de hepatite que está causando o aumento do nível de enzimas hepáticas.
Anticorpos: os médicos usam testes tipo ELISA e RIBA para detectar a presença de anticorpos que seu organismo produz contra o vírus da hepatite C. Um teste de anticorpo VHC (anti-VHC ou anti-HCV) positivo indica exposição ao vírus, mas não diz se a infecção está presente ou se já foi curada.
Presença do RNA do vírus: Os médicos utilizam o teste PCR (reação de polimerase em cadeia) para procurar o RNA do VHC. O RNA é um conjunto de proteínas que carrega as informações sobre o vírus. Esse teste pode indicar se o vírus está presente no organismo. Há também um teste que verifica a carga viral, porém não é muito utilizado devido a ausência de padronização do método (uniformização do método).
Biópsia: A biópsia é a retirada de um fragmento do tecido, nesse caso, o fígado, para examinar a natureza das alterações nele existentes. As biópsias freqüentemente são solicitadas para distinguir hepatite viral de hepatite causada por outros fatores, como o alcoolismo, por exemplo.
            Além disso, indica também o grau do dano hepático (se existe fibrose ou cirrose e qual é o estágio). É importante para decidir-se sobre a necessidade ou não de tratamento.
            A hepatite C é uma doença de notificação compulsória, ou seja, o médico que a diagnosticou deve, obrigatoriamente, informar a secretaria de saúde do seu estado.

Como é a evolução da hepatite C?
            A hepatite C é uma doença que evolui lentamente e tem várias conseqüências possíveis:
1. Pacientes que não apresentam sintomas (assintomáticos) - Cerca de 70% a 90% dos portadores crônicos de hepatite C, não apresentam sintomas. Se ocorrem, são muito leves e por isso a infecção pode levar muitos anos para ser diagnosticada.
2. Infecção aguda - O período de incubação varia de 2 semanas a 6 meses e os pacientes, na maior parte das vezes, não apresentam sintomas clínicos.
3. Infecção crônica - Em adultos, a progressão da doença para a forma crônica é muito maior na hepatite C (cerca de 80%) do que na hepatite B (10%). Como já vimos, nesse caso, a doença pode danificar muito o fígado e progredir para cirrose ou até câncer.

            Existem alguns fatores que podem indicar a evolução para a hepatite crônica C:
  • Duração prolongada da infecção;
  • idade avançada na época da infecção;
  • alto consumo de álcool;
  • infecção pelo genótipo 1b do VHC;
  • infecção conjunta com a hepatite B ou o vírus da Aids.
Tratamento:
            O tratamento visa prevenir as complicações provocadas pela hepatite C (hepatite crônica, cirrose e câncer de fígado). O tratamento ideal deveria eliminar completamente o VHC do organismo do paciente, porém, não é possível atingir esse objetivo em todos os casos, com os medicamentos disponíveis atualmente.

            O único tratamento com eficácia comprovada contra a hepatite crônica C é o interferon alfa.

            Nenhuma outra droga comprovou ser eficaz nessa doença, embora muitas ainda estejam em estudo clínico. A combinação com uma droga denominada ribavirina tem demonstrado duplicar a taxa de resposta sustentada ao tratamento com interferon. Agentes antivirais, como o aciclovir, não demonstraram eficácia em pacientes com hepatite C.            
            O uso de agentes imunossupressores, como por exemplo, os corticosteróides - drogas que imitam os efeitos dos hormônios da glândula supra-renal, suprimindo a inflamação e a atividade dos leucócitos - está associado a uma progressão mais rápida para a cirrose, não sendo, portanto, indicados.

Hepatite Aguda C: Alguns estudos foram conduzidos durante a fase aguda da infecção pelo VHC e os resultados demonstraram que a terapia com IFN- produz redução significativa no número de pacientes que desenvolvem a infecção crônica.

            É pouco provável, contudo, que a droga seja administrada na fase aguda, devido à relativa ausência de sintomas da hepatite aguda C, o que torna o diagnóstico muito difícil.
Hepatite Crônica C: IFN-, combinado com a ribavirina, é o tratamento padrão para pacientes com hepatite crônica C, durante 12 meses para o genótipo 1 e 6 meses para os genótipos não-1. Essa é a terapia utilizada atualmente no Brasil.
            Não há critérios universalmente aceitos para avaliar a resposta definitiva à terapia. A eficácia, assim, deve ser medida em termos de "cura", ou seja, eliminação completa do vírus e prevenção das lesões ao fígado.
            Entre 50% a 85% dos pacientes respondem inicialmente à terapia, obtendo níveis normais de enzimas do fígado no final do tratamento (resposta primária ou resposta completa ao final do tratamento). Aproximadamente 30% dos pacientes que utilizam a terapia combinada (IFN + ribavirina) obtêm resposta favorável por longos períodos (resposta sustentada).
            O tratamento para hepatite crônica C no Brasil é a combinação interferon alfa + ribavirina por 1 ano para os genótipos 1 e 6 meses para os genótipos não-1.
            A terapia combinada de interferon e ribavirina não deve ser utilizada por mulheres grávidas, pois oferece o risco significativo de má formação do feto.
            Mulheres não devem começar o tratamento até que se certifiquem de que não estejam grávidas, através de um exame adequado. Homens e mulheres em idade fértil, devem fazer uso de métodos contraceptivos eficazes durante o tratamento e por mais seis meses após o término.
Convivência com o problema:
            É muito importante aprender a estar informado sobre a hepatite C. Mantenha acompanhamento médico, decidindo junto com o especialista o melhor caminho para tratar a hepatite.
            O tratamento para hepatite C pode causar vários efeitos colaterais. Se você está em tratamento, tenha em mente que todos esses efeitos são passageiros e procure seguir as orientações do médico, aplicando corretamente as doses do medicamento e nos espaços de tempo prescritos.
            Alguns conselhos básicos podem ajudar a reduzir os problemas relacionados ao uso da medicação:
1- Para aliviar febres e dores de cabeça, você pode utilizar o analgésico paracetamol, sempre com a aprovação prévia de seu médico;
2- aplicando as injeções de interferon à noite, antes de deitar-se, os picos de concentração do medicamento (e conseqüentemente, os picos dos efeitos colaterais) são atingidos durante o sono;
3- procure evitar situações estressantes e não se desgaste fisicamente;
4- sempre que possível pratique exercícios leves, como caminhadas;
5- tenha uma dieta equilibrada.
            Geralmente os efeitos colaterais vão diminuindo após as primeiras semanas de tratamento e a maior parte dos pacientes consegue viver normalmente durante a terapia.
            Quando houver qualquer dúvida, converse francamente com seu médico. Se necessário, converse também com seus familiares, amigos e até mesmo seu empregador sobre a redução de suas tarefas.
            Procure encontrar nos médicos, enfermeiros e associações de pacientes, o suporte necessário. Os grupos de portadores de hepatite, organizam reuniões e os freqüentadores sentem-se mais encorajados a fazer o tratamento, além de aprenderem muito sobre como encarar o novo desafio com valiosas dicas de qualidade de vida.
            Já existem no Brasil vários Grupos de Apoio a portadores da hepatite C e, dentre eles, podemos relacionar os seguintes e-mails:
            Há, também, um excelente site que deve ser visitado:
            Sugerimos, ainda, adquirir o livro "Convivendo com a hepatite C"  que poderá ser comprado diretamente do autor Carlos Varaldo, através do e-mail cvaraldo@yahoo.com. É uma obra indispensável aos portadores e aos familiares.


Mais informações e referências bibliográficas:
1. FOCACCIA, Roberto. Hepatites virais. 1.ed. São Paulo. Atheneu, 1997.
2. Protocolo técnico para tratamento da hepatite C - Ministério da Saúde, junho de 2000.
3. SCHINAZI, Raymond F. et al. Therapies for viral hepatitis. 1.ed. London. International Medic Press, 1998.
4. SILVA, Adávio de Oliveira; D'ALBUQUERQUE, Luiz A. Carneiro. Doenças do fígado Volume I e II. 1.ed. Rio de Janeiro. Revinter, 1996.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Estudo mostra redução de casos de hepatites A, B e C no País entre 1999 e 2010

O Ministério da Saúde divulgou dia 28 de julho os dados do Inquérito Nacional de Hepatites Virais, maior pesquisa sobre o tema já realizada na América Latina. O estudo revela mudanças no padrão de ocorrência dessas doenças no Brasil, com redução das infecções dos tipos A, B e C entre 1999 e 2010.

De acordo com os dados, o percentual da população que tem ou já teve hepatite (prevalência) nas capitais brasileiras e no Distrito Federal foi de 39,5% para o tipo A, 0,37% para o vírus B e 1,38% para o tipo C. 

Segundo critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), a frequência de casos encontrados (chamada endemicidade) das hepatites B e C é considerada baixa no Brasil. No caso da hepatite A, a taxa varia entre intermediária e baixa. Até o momento, estimativas da OMS classificavam o País na faixa de endemicidade intermediária a alta, porém não se baseavam em estudos amplos e atuais. 

“Os números encontrados no novo estudo são reflexos claros da melhoria das condições sanitárias, no caso da hepatite A, e do impacto da vacinação contra hepatite B”, avalia o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. 
Mais de 26 mil pessoas participaram da pesquisa: 6.468 fizeram teste para hepatite A e 19.634 realizaram exames para detectar os vírus B e C. A população residente no conjunto das capitais representa 23,8% da população total do País – mais de 45 milhões de habitantes. O estudo é um retrato aproximado da prevalência das hepatites virais no Brasil. 

Se o padrão observado nas capitais e no DF for considerado para todo País, a estimativa de prevalência para a população brasileira geral é de 20,5 milhões que já tiveram, em algum momento de sua vida, infecção pelo vírus da hepatite A, 800 mil pelo vírus B e 1,5 milhão pelo tipo C. 

Para o vírus tipo A, participaram do inquérito pessoas de 5 a 19 anos, faixa etária em que a prevalência permite realizar inferências sobre o padrão de ocorrência da doença. No caso dos vírus B e C, participaram indivíduos de 10 a 69 anos. 
 
Hepatite A
O estudo indica que, quanto menor o nível socioeconômico, maior a frequência de casos de hepatite A. É o que acontece nas capitais da região Norte, que apresentam a maior prevalência da doença (58,3%). “Isso mostra a influência do acesso ao saneamento, que é menor nessas capitais, favorecendo uma maior circulação desse vírus”, observa Dirceu Greco, diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério.

Chama atenção o dado de que, em todo o Brasil, menos pessoas estão tendo contato com a doença na infância. Nessa fase da vida, a hepatite A se apresenta como uma doença de cura espontânea, sem deixar sequelas. A redução de casos nessa faixa etária é consequência da ampliação no acesso ao saneamento básico, observado em todo País. 
 
Tipo B
Nas capitais brasileiras e no DF, a prevalência da doença é 10 vezes maior nas faixas etárias mais elevadas – 0,6% entre pessoas de 20 a 69 anos e de 0,06% entre jovens de 10 a 19 anos. O dado reflete a principal forma de transmissão desse tipo da doença, por meio de relação sexual.

Além disso, a baixa frequência de casos entre crianças e adolescentes decorre da vacinação contra a hepatite B, disponível no Sistema Único de Saúde. Desde 1998, o Ministério da Saúde incluiu a vacina no calendário básico e, a partir de 2001, começou a ofertá-la para crianças e adolescentes.
 
Hepatite C
Entre as hepatites virais, a do tipo C é a que exige mais atenção, pois se os casos não forem diagnosticados precocemente, aumentam a possibilidade de agravamento da saúde dos pacientes, que passariam a ter um quadro crônico da doença.

Muitas pessoas infectadas não sabem que têm o vírus da hepatite C, doença que pode permanecer sem sintomas por até 20 anos. O diagnóstico, disponível na rede pública de saúde, só pode ser feito por meio de testes em laboratório. A descoberta tardia da hepatite C – quando os pacientes apresentam lesões importantes no fígado, incluindo câncer e cirrose hepática – é a principal causa de indicação de transplante de fígado no Brasil.

De acordo com o Inquérito Nacional de Hepatites Virais, a maior prevalência da hepatite C está nas capitais da região Norte (2,1%) e a menor, no Nordeste (0,7%).

A principal forma de transmissão da hepatite C é a sanguínea, por meio do compartilhamento de seringas contaminadas ou objetos que cortam e perfuram, como alicates, tesouras e agulhas de tatuagem. A doença também é transmitida da mãe para o filho (durante a gravidez ou no parto) e na relação sexual sem preservativo. 

A transfusão de sangue não é mais um fator de risco, pois desde 1993 há controle minucioso da qualidade do sangue em relação às hepatites. 
 
Testes
Atualmente, os testes para hepatites estão disponíveis em todo o SUS. Em agosto, serão oferecidos também exames rápidos para os tipos B e C, nos Centros de Testagem a Aconselhamento (CTA) das capitais do Brasil. 

O resultado fica pronto em 30 minutos. Com testes convencionais, o resultado sai em até 15 dias. Já foram adquiridos mais de 3 milhões de testes rápidos (metade para hepatite B, metade para hepatite C) para ampliar o acesso ao diagnóstico.
 
Fonte: Ministério da Saúde

domingo, 24 de julho de 2011

“Três milhões de brasileiros têm Hepatites B e C”, alerta Dr. Drauzio Varella

Primeiro episódio da nova série explica a diferença entre os tipos de hepatite e dá detalhes da forma crônica da doença.

“Minha vida era normal, como a de todo garoto de 22 anos. Não sentia sintoma algum, não sentia dor. Nada que me indicasse que eu tinha esse vírus da hepatite”, conta um jovem.
“Fiquei apavorada, assustada, porque eu não tinha informação sobre a doença. Mas como era uma questão de uma gestação, você se preocupa mais”, relata Juíara.
“Não posso andar no sol, pular, correr. A comida que eu comia antes eu não posso comer. É diferente”, explica uma criança.
“Até oito, dez anos atrás, ninguém tinha ideia do que é hepatite. Só sabiam que existia, mas ninguém tinha ideia do que era. Tinham algumas prevenções que não tinham nada a ver. Por exemplo, comer em prato separado”, diz Gilberto.

Nesta série, vamos falar das hepatites e você verá que as hepatites são causadas por vírus completamente diferentes uns dos outros. Alguns provocam uma doença benigna, quase sem complicações. Outros, como os vírus das hepatites B e C, provocam uma infecção crônica, que leva à cirrose e ao câncer de fígado.

Sabe quantos brasileiros existem nessa situação? Três milhões. Sabe quantos foram identificados? Cerca de 150 mil. As hepatites são uma epidemia. Infelizmente, uma epidemia ignorada.

O fígado normal é lisinho e pesa 1,2kg, 1,5kg mais ou menos. É o laboratório químico do organismo. Todo sangue passa por ele. Aí ele produz proteínas e elimina as toxinas, tanto as que vêm de fora quanto aquelas produzidas pelo próprio organismo. Os vírus das hepatites B e C são tão pequenininhos que não adianta colocar no microscópio porque a gente não consegue enxergar.

Eles infectam as células do fígado e isso faz um processo inflamatório crônico. As células vão sendo destruídas e aí o organismo vai perdendo a capacidade de formar proteínas e eliminar toxinas. A pessoa vai ficando intoxicada. Ao mesmo tempo, as células que morrem são substituídas por umas cicatrizes que vão distorcendo a forma do fígado e atrapalhando a circulação.

E, com isso, aumentam os riscos de sangramentos. Isso é um processo silencioso que dura 10, 20, 30 anos. A pessoa está doente, mas não sabe. Só vai apresentar sintomas quando o fígado estiver em péssimas condições.

“Quando eu descobri que estava grávida eu já fui fazer meus exames de pré-natal. E foi quando eu descobri, nesta segunda gestação, que eu era portadora da hepatite B”. A gravidez trouxe felicidade, mas também preocupação para Juíara, de Vacaria, Rio Grande do Sul. O momento do parto é uma das formas mais comuns de transmissão da doença.

Na coxa direita, o bebê toma a vacina contra hepatite B, como as outras crianças. Mas como a mãe tem hepatite B, na coxa esquerda ele recebe a imunoglobulina que contém anticorpos contra o vírus. Além de passar da mãe para o filho, o vírus da hepatite B também é transmitido por objetos cortantes contaminados por sangue.

Uma pesquisa realizada em salões de beleza da cidade de São Paulo mostrou que há muita desinformação. Só 20% das manicures tinham tomado a vacina. Além disso, 8% eram portadoras de hepatite B. Você tem que ter certeza que o material foi esterilizado.

A manicure vai, faz a unha de uma pessoa, sai um pouquinho de sangue e ela depois vai e faz a sua unha, fura sem querer a cutícula, esse vírus – que é uma coisa muito pequena entra e cai na sua circulação. Você usa escova de dentes dos outros? Então, material de manicure é a mesma coisa. Cada um tem que ter o seu. E se usar o material do salão de beleza tem que ter certeza de que ele foi esterilizado adequadamente.

“Em 1979, em fevereiro, nasceu minha filha Rita, a quarta de cinco filhos. Quando nascia algum filho meu, eu fazia doação de sangue. Naquele dia, o médico do hospital falou que eu não poderia mais ser doador porque eu era portador de hepatite B. O único jeito de saber, naquele tempo, era doando sangue. Não tinha exame de sangue como hoje.” Gilberto é um caso típico de hepatite B crônica. Não sentia nada, descobriu por acaso que era portador do vírus e continuou vivendo bem, sem nenhum sintoma de que a doença estava ficando grave.

“Quando foi o ano passado, eu fui ao hospital e a doutora falou para mim: ‘Olha, você está com três nódulos cancerígenos, vai ter que tratar. Se você melhorar, tudo bem. Se não melhorar, entra na fila do transplante”, conta Gilberto.

Como o fígado é um órgão que sofre calado, esses portadores crônicos não sentem nada. Só descobrirão que estavam infectados 20, 30 anos mais tarde, quando vierem a cirrose e o câncer de fígado.

“E a há quase dois anos, quando encontrei a Andrea, no primeiro eu tomei um chope preto, ela tomou um suco. Eu perguntei se a gente podia se encontrar de novo e ela falou: ‘Pode, desde que você não beba’. Aí parei de tomar cerveja, faz quase dois anos”. Os portadores de hepatite B não devem tomar bebidas alcoólicas. O álcool é tóxico para o fígado.

Hepatite B tem vacina. A única forma de acabar com a doença no Brasil. O certo era vacinar todo mundo, mas como o Ministério da Saúde não recebe recursos financeiros suficientes, decidiu estabelecer prioridades. Podem receber a vacina gratuitamente todos na faixa até 24 anos. Além deles, os profissionais de saúde, os policiais, as manicures, os portadores do HIV, além de outros grupos. A vacina tem três doses. Você toma a primeira hoje, a segunda daqui a 30 dias, a terceira daqui a seis meses. Seis meses contados a partir da primeira dose. Precisa tomar as três doses.

Chapecó faz parte de uma região que recebeu grande número de imigrantes italianos no início do século passado. Com eles, veio o vírus da hepatite B. Hoje, 7% dos habitantes da cidade são portadores crônicos do vírus B. Um número altíssimo. A partir de 1995, Chapecó desenvolveu um programa exemplar de vacinação que acabou com a hepatite B entre as crianças e que eliminará o vírus nas gerações futuras.

“A gente prima muito pela prevenção. O que a gente quer é que as pessoas completem o esquema. Façam a primeira, a segunda e a terceira dose. Nós temos uma boa cobertura de vacinação. Sempre acima de 98% das crianças são vacinadas. O Ministério preconiza até 95%, agente tem, sempre, a partir de 98%”, relata a coord. Setor de Tuberculose, Maria Luiza Trizotto.

“Eu estou montando um livro, já estou com 80 e poucos artigos, agora vou fechar o livro. Estou com dificuldade porque não estou me sentindo bem. Então, a única chantagem que eu fiz com Deus foi essa: ‘Vamos maneirar esse câncer aí porque eu preciso fazer o livro”, brinca Gilberto.

“Eu acho que, como mãe ou como qualquer outra pessoa, você deve correr atrás. Quanto mais um filho seu. Foi o que eu fiz. Fui atrás para manter ele livre. Livre da hepatite”, diz Juíara.


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